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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Joaquim Barbosa: negro, popular e agora presidente do Supremo.

Ministro do Supremo (STF) Joaquim Barbosa.
O mineiro Joaquim Benedito Barbosa Gomes é eleitor do PT. Votou em Lula, votou em Dilma. Sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) teve a chancela do então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Histórico que não impediu o relator da ação penal 470 de conduzir a condenação de ícones petistas no julgamento do mensalão. O primeiro negro a assumir a presidência da mais alta Corte do país é um homem que preza pela independência.
Implacável, irritadiço ao ter seu ponto de vista contrariado, Barbosa toma posse na próxima quinta-feira em alta. Aos 58 anos, virou uma celebridade que carrega na origem humilde e na mescla de hábitos simples e sofisticados a base do fascínio popular. Barbosa é o negro poliglota, o amante de música clássica e samba, o homem que prepara o próprio café, mas só veste ternos importados.
Desde pequeno, nunca foi de baixar a cabeça. Primogênito dos oito filhos de um pedreiro e uma dona de casa, nasceu em Paracatu, cidade do noroeste mineiro, erguida com o suor escravo. Nas décadas de 1950 e 1960, a segregação racial persistia, porém fazia questão de ocupar os mesmos espaços dos meninos brancos.
— Ele não aceitava ser barrado por causa da cor. E descontava qualquer discriminação nas notas. Deixava os filhos dos fazendeiros pra trás na escola — recorda o amigo José Romualdo, o Zé da Áurea, 63 anos.
Dito, como os familiares o chamam, cresceu no bairro de Paracatuzinho, em uma casa de adobe, alvo de romarias de repórteres nas últimas semanas. Lia compulsivamente, aprendeu a tocar piano e violino, cantarolava em inglês e dava seus dribles com a camisa do Santana Esporte Clube.
— Joaquim lembrava de longe o Dirceu Lopes, craque do Cruzeiro — recorda o ex-jogador Dario Alegria, primo distante do ministro.
Apesar do gosto pelo futebol, Barbosa tabelou com os livros. Fez doutorado na Sorbonne e passou a dar aulas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Virou o orgulho de Paracatu.
— Qualquer um que tem Barbosa no nome diz que é parente dele — ri a afilhada Junia, 37 anos.
O mineiro construiu uma trajetória impecável, resposta aos que insinuam que virou ministro por ser negro. Na verdade, as duas questões convergem. Lula queria creditar ao seu governo a nomeação do primeiro negro do Supremo. O currículo, aprovado pelo então ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, facilitou a escolha.
Na cúpula do Judiciário, Barbosa coleciona discussões com colegas. Ao tratar com rigor crimes de colarinho branco, passou a ser aplaudido nas ruas, cultuado nas redes sociais. Em Paracatu já se cogita erguer uma estátua em homenagem ao filho ilustre. Os mais exaltados criaram um site para defender a candidatura do ministro à Presidência da República. O magistrado garante que não pretende suceder Dilma Rousseff, tampouco se considera super-herói. Porém, sabe: jamais um presidente do STF teve tamanha popularidade.
CURRÍCULO NOTÁVEL:
— Joaquim Barbosa detém um dos currículos mais notáveis da história do Supremo Tribunal Federal. Fez a formação escolar entre Paracatu e Brasília, para onde migrou na adolescência. Na capital federal, estudou no colégio Elefante Branco.
— Trabalhou na gráfica do Senado, era um dos poucos negros no curso de Direito da Universidade de Brasília, onde ainda fez mestrado. Mais tarde, obteve título de doutor e mestre em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas).
— É professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professor visitante em duas universidades americanas. Ainda estudou línguas estrangeiras no Brasil, Inglaterra, Estados Unidos, Áustria e Alemanha.
— Foi oficial de chancelaria do Itamaraty, chefe da consultoria jurídica do Ministério da Saúde e membro concursado do Ministério Público Federal de 1984 a 2003, quando foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
— O sucesso na carreira fez Barbosa levar a família para Brasília. Na capital, mora a mãe, Benedita, conhecida por ser uma evangélica fervorosa, além dos irmãos e sobrinhos — o pai faleceu há dois anos. Separado há pouco tempo, o ministro mantém outra parte da vida no Rio de Janeiro, onde vive Felipe, seu único filho.

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